SÉRIE “ANTES DE TUDO PREGA O EVANGELHO” 3


SÉRIE  “ANTES DE TUDO PREGA O EVANGELHO” 3

 

 

3. O Evangelho de Deus (vs. 9,10)

. . . que nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos, 10e manifestada agora pelo aparecimento de nosso Salvador Cristo Je­sus, o qual não só destruiu a morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho…

É notável ver Paulo passar, de repente, da referência ao “evange­lho” à afirmação central: “Deus . . . nos salvou”. É mesmo impos­sível falar do evangelho sem falar, ao mesmo tempo, da salvação. O evangelho é precisamente isto: boas novas de salvação, ou boas notícias de “nosso Salvador Cristo Jesus” (v.10).   Desde o dia do Natal, quando a boa nova de alegria foi anunciada pela primeira vez, proclamando o nascimento do “Salvador que é Cristo o Se­nhor” (Lc 2: 10-11), os seguidores de Jesus têm reconhecido o seu conteúdo essencial. Paulo mesmo nunca vacilou a esse respeito. Em Antioquia da Pisídia, na primeira viagem missionária, ele re­fere-se ao seu evangelho como a “mensagem desta salvação”. Em Filipos, na segunda jornada missionária, ele e seus companheiros foram identificados como “servos do Deus Altíssimo, que nos anunciam o caminho da salvação”. E ao escrever em Roma aos Efésios, ele intitula a palavra da verdade de “o evangelho da vos­sa salvação” (At 13:26; 16:17; Ef 1:13).

Assim, aqui, ao escrever a respeito do evangelho, Paulo usa a terminologia costumeira, isto é, que somos salvosem Cristo Je­sus por determinação, graça e chamado de Deus, não por nossas próprias obras. É que ele está expondo, nesta sua última carta, o mesmo evangelho que já expusera na sua primeira carta (Gaia­tas). Com o passar dos anos, o seu evangelho não sofreu mudan­ças; há somente um evangelho de salvação. E conquanto deva­mos traduzir os termos “evangelho” e “salvação” por expressões mais compreensíveis ao homem moderno, não podemos alterar a substância da nossa mensagem. Examinando com mais cuida­do a forma concisa com que Paulo apresenta o evangelho de Deus nestes versículos, constatamos que ele indica a sua essência (o que é o evangelho), a sua origem (de onde provém) e o seu fundamento (onde se baseia).

 

a. A essência da salvação

Precisamos juntar as três cláusulas que afirmam que Deus “nos salvou”, “nos chamou com santa vocação” e “trouxe à luz a vida e a imortalidade”. Isto explica que a salvação vai muito além do perdão. O Deus que nos “salvou” é também o que, ao mesmo tempo, “nos chamou com santa vocação”, ou seja, que nos “cha­mou para sermos santos”. O chamamento cristão é uma vocação santa. Quando Deus chama alguém para si, também o chama à santidade. A isto Paulo dera muita ênfase em suas cartas anterio­res. “Deus não nos chamou para a impureza, e, sim, em santificação”, porque todos fomos “chamados para ser santos”, chamados para viver como povo santo de Deus e separado para ele (1 Ts 4:7; 1 Co 1: 2). Sendo a santidade uma parte integrante no plano de Deus para a salvação, também o é a “imortalidade”, da qual escreve no versículo seguinte (v.10). De fato, “perdão”, “santi­dade” e “imortalidade” são três aspectos da grande “salvação” de Deus.

O termo “salvação” precisa ser urgentemente libertado do con­ceito medíocre e pobre com o qual tendemos a degradá-lo. “Sal­vação” é um termo majestoso, que evidencia todo o amplo pro­pósito de Deus, pelo qual ele justifica, santifica e glorifica o seu povo: primeiramente, perdoando as nossas ofensas e aceitando-nos como justos ao nos olhar através de Cristo; depois transformando-nos progressivamente, pelo seu Espírito, para sermos conforme a imagem do seu Filho, até que finalmente nos tornemos iguais a Cristo no céu, com novos corpos, num mundo novo. Não deve­mos minimizar a grandeza de “tão grande salvação” (Hb 2:3).

 

b. A origem da salvação

De onde provém tão grande salvação? A resposta de Paulo é: “Não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determina­ção e graça que nos foi dada em Cristo Jesusantes dos tempos eternos” (v.9). Se quiséssemos acompanhar o manancial da salva­ção até a sua origem, deveríamos então voltar para trás, através do tempo, em direção à eternidade do passado. As palavras do apóstolo são mesmo: “antes dos tempos eternos”[1] e são traduzi­das de diversas formas: “antes do princípio do mundo” (BV), “antes do tempo existir” (CIN), ou “antes de todos os séculos” (PAPF).

Para não pairar qualquer dúvida sobre a verdade de que a pre­destinação e eleição por Deus pertence à eternidade e não ao tem­po, Paulo faz uso de um particípio aorístico para indicar que Deus de fato nos deu algo (dotheisan) desde toda a eternidade, em Cris­to. O que Deus nos deu foi “a sua própria determinação e graça”, ou “a sua determinação, ou propósito, de nos dar graça”.   A sua determinação de dar a salvação não era arbitrária, mas sim funda­da em sua graça.[2] Fica claro, por conseguinte, que a fonte de nos­sa salvação não são as nossas próprias obras, visto que Deus nos deu a sua própria determinação da graça em Cristo antes que pra­ticássemos quaisquer boas obras, antes de termos nascido e de ter­mos podido fazer quaisquer obras meritórias; antes mesmo da História, antes do tempo, na eternidade.

Temos que confessar que a doutrina da eleição é matéria difí­cil para mentes finitas mas é, incontestavelmente, uma doutrina bíblica. Ela enfatiza que a salvação é devida exclusivamente à graça de Deus, e não aos méritos humanos; não às nossas obras realizadas no tempo, mas à determinação que Deus concebeu na eternidade; “aquela determinação”, como se expressa o Rev. Ellicott, “que não surgiu de algo fora dele, mas que brotou unica­mente das maiores profundezas da divina eudokia”.[3] Ou, nas palavras de E. K. Srmpson: “As escolhas do Senhor têm as suas razões imperscrutáveis, mas não se baseiam na elegibilidade dos escolhidos”.[4] Assim sendo, a divina determinação, ou propósi­to, da eleição é um mistério para a mente humana, já que não se pode aspirar compreender os pensamentos secretos e as decisões da mente de Deus. Contudo, a doutrina da eleição nunca é in­troduzida na Escritura para despertar ou para diminuir a nossa curiosidade carnal, mas sempre tendo um propósito bem prático. De um lado ela desperta uma profunda humildade e gratidão, por excluir todo o orgulho próprio. De outro lado, traz paz e segu­rança, porque nada pode acalmar os nossos temores pela nossa própria estabilidade como o conhecimento de que a nossa segu­rança depende, em última análise, não de nós mesmos, mas da própria determinação e graça de Deus.

 

c. O fundamento da salvação

 

A nossa salvação tem um firme fundamento na obra histórica efe­tuada por Jesus Cristo no seu primeiro aparecimento.   Porque, conquanto a graça de Deus nos tenha sido “dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos”, ela foi “manifestada agora”, no tem­po, “pelo aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus”, ou seja, pelo aparecimento do mesmo Jesus Cristo. Os dois estágios divi­nos foram em e através de Jesus Cristo; a dádiva foi eterna e secre­ta, mas a manifestação foi histórica e pública.

O que então Cristo realizou, ao aparecer e manifestar a eterna determinação e graça de Deus? A isto Paulo dá uma dupla respos­ta no versículo 10. Primeiramente, Cristo “destruiu a morte”. Em segundo lugar, “trouxe à luz a vida e a imortalidade, median­te o evangelho”.

Em primeiro lugar, Cristo destruiu a morte.

“Morte” é, de fato, a palavra que bem sintetiza a nossa con­dição humana resultante do pecado. Porque a morte é o “salário” do pecado, é a sua horrível punição (Rm 6: 23). E é assim para cada uma das formas que a morte assume. A Escritura fala da morte em três sentidos: a morte física, a alma separada do corpo; a morte espiritual, a alma separada de Deus; e a morte eterna, a alma e o corpo separados de Deus para sempre. Todas as três mor­tes são devidas ao pecado; são a sua terrível, porém justa, recom­pensa. Mas Jesus “destruiu” a morte. O sentido não pode ser o de que ele já a tenha eliminado, conforme sabemos por nossa pró­pria experiência diária. Os pecadores ainda estão “mortos em delitos e pecados”, nos quais andam (Ef 2: 1-2), até que Deus lhes dê a vidaem Cristo. Todosos seres humanos morrem fisicamen­te e continuarão a morrer, com exceção da geração que estiver viva quando Cristo retornarem glória. Emuitos experimentarão a “segunda morte”, que é uma das apavorantes expressões usadas no livro do Apocalipse para designar o inferno (p. ex.: Ap. 20: 14; 21:8). Com efeito, anteriormente Paulo escrevera que a des­truição final da morte ainda se encontra no futuro, quando ela, o último inimigo de Deus, será destruída (1 Co 15: 26). Só depois da volta de Cristo e da ressurreição dos mortos é que haveremos de proclamar com júbilo: “tragada foi a morte pela vitória” (1 Co 15:54;cf.Ap21:4).

O que Paulo afirma, triunfantemente, neste versículo, é que, em seu primeiro aparecimento, Cristo decisivamente derrotou a morte. O verbo grego katargeö não permite, por si mesmo, con­cluirmos qual seja o seu significado, pois pode ser empregado com muitos sentidos, e assim só o contexto pode determinar qual o seu correto significado. Contudo, o seu primeiro e mais notável sen­tido é o de “tornar ineficiente, sem poder, inútil” ou “anular” (AG). Assim Paulo compara a morte a um escorpião, do qual se arrancou o ferrão; e também a um comandante, cujas tropas fo­ram vencidas. O apóstolo pode, portanto, levantar a sua voz em desafio:   “Onde está, ó morte, a tua vitória? onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1 Co 15: 55). Porque Cristo destruiu o poder da morte (AG).

É muito significativo que este mesmo verbo katargeö é usado no Novo Testamento com referência ao diabo e à nossa natureza decaída, assim como o é também com referência à morte (Hb 2: 14; Rm 6: 6). Nem o diabo, nem a nossa natureza decaída e tam­pouco a morte foram aniquilados; mas pelo poder de Cristo, a ti­rania de cada um deles foi destruída, de forma que os que estão em Cristo estão em liberdade.

Consideremos particularmente como foi que Cristo “destruiu” ou “anulou” a morte. X A morte física já não é mais o terrível monstro que nos pare­cia antes, e que continua ainda sendo para muitos, a quem Cristo ainda não libertou. Pelo pavor da morte eles ainda estão “sujeitos à escravidão por toda a vida” (Hb 2: 15). Já para os crentes em Cristo a morte significa simplesmente “dormir” em Cristo; e isto é, na verdade, um “lucro”, por ser o caminho para estar “com Cris­to, o que é incomparavelmente melhor”. É um dos bens que se tornam nossos, quando somos de Cristo (1 Ts 4:14-15; Fp 1:21-23; 1 Co 3: 22-23). A morte tornou-se tão inofensiva, que Jesus che­gou a afirmar que o crente, ainda que morra, “não morrerá, eter­namente” (Jo 11: 25-26). O que é absolutamente certo é que a morte jamais conseguirá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo (Rm 8:38-39).

A morte espiritual, para os cristãos, deu lugar à vida eterna, que é a comunhão com Deus, iniciada aqui na terra e que será perfeita no céu. Além disso, os que estão em Cristo “de nenhum mo­do sofrerão os danos da segunda morte”, porque já passaram da morte para a vida (Ap 2:11; Jo 5:24; e 1 Jo3:14).

Em segundo lugar, Cristo “trouxe à luz a vida e a imortalidade mediante o evangelho”. Esta é a contrapartida positiva. Foi por meio de sua morte e ressurreição que Cristo destruiu a morte.  É através do evangelho que ele agora revela o que fez, e oferece aos homens a vida e a imortalidade que para eles conquistou. Não está claro se devemos fazer distinção entre as palavras “vida” e “imortalidade”, pois podem ser sinônimas, a segunda definindo a primeira. Ou seja, a espécie de vida que Cristo nos garantiu, e que agora nos revela e nos oferece através do evangelho, é a vida eter­na, uma vida que é imortal e incorruptível. Somente Deus possui a imortalidade em si mesmo, mas Cristo a dá aos homens. Até mesmo os nossos corpos participarão dessa imortalidade, após a ressurrei­ção (1 Co 15: 42, 52-54). Assim será a herança que receberemos (1 Pe 1:4). De outro lado, como C. K. Barrett escreve: “possivel­mente ‘vida’ refira-se à nova vida, possível de ser obtida neste mun­do; e ‘imortalidade’ ao seu prolongamento depois da morte”.[5]Qualquer que seja a nossa conceituação dessas palavras, ambas são “reveladas” ou “trazidas à luz” através do evangelho. Há muitas alusões no Velho Testamento a uma vida após a morte, e alguns lampejos dessa fé, mas de maneira geral a revelação do Antigo Tes­tamento é o que o Rev. Moule chamou de “um lusco-fusco”,[6] em comparação com o Novo Testamento. O evangelho, contudo, trou­xe torrentes de luz sobre a dádiva da vida e da imortalidade, atra­vés da vitória de Cristo sobre a morte.

A fim de apreciarmos a plena força desta afirmativa cristã, pre­cisamos relembrar quem é este que a está proferindo. Quem é este que escreve com tanta segurança sobre a vida e a morte, sobre a destruição da morte e a revelação da vida? É alguém que encara a iminente expectativa da sua própria morte. A qualquer hora ele espera receber a sua sentença de morte. Já soa em seus ouvidos a sua ultimação final. Em sua imaginação já pode ver o lampejar da espada do carrasco. E, não obstante, na dura presença da morte, ele brada alto: “Cristo destruiu a morte”. Isto é fé cristã triunfante!

Como suspiramos e anelamos que a igreja de nossos dias recu­pere a sua esperança na vitória de Jesus Cristo, que proclame estas boas novas a este mundo, para o qual morte continua sendo uma palavra proibida.    A revista “The Observer” dedicou uma edição inteira ao tema “morte”, em outubro de 1968, e comentou: “Lon­ge de estar preparada para a morte, a sociedade moderna confe­riu a esta palavra o caráter de coisa não mencionável. . . aplica­mos todos os nossos talentos para nos esquivar da expectativa de morrer e, quando a hora chega, reagimos de qualquer forma, ou com excessiva trivialidade, ou até com total desespero”.

Um dos testes mais reveladores que se pode aplicar a qualquer religião diz respeito à atitude da mesma em relação à morte. Ava­liada por este teste, muito “cristianismo” por aí é achado em falta, com suas roupagens pretas, e com seus cânticos plangentes e suas missas de réquiem. É claro que morrer pode ser muito desagradá­vel e a perda de um ente amado pode trazer amarga tristeza. Mas a própria morte foi derrotada, e “bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor” (Ap 14: 13). O epitáfio adequa­do para um crente em Cristo não é a lúgubre e incerta petição, requiescat in pace (descanse em paz), mas a firme e jubilosa afir­mação: “Cristo venceu a morte”, ou para quem prefira línguas clássicas, o equivalente a isso em grego ou latim!

Tal é, pois, a salvação que nos é oferecida pelo evangelho, da qual nos apropriamosem Cristo. Caracteriza-sepela recriação e transformação do homem na santidade de Cristo, aqui e além. A origem desta salvação é o eterno propósito da graça de Deus. O seu fundamento é o aparecimento histórico de Cristo e a destruição da morte por ele.

Juntando estas grandes verdades, podemos encontrar cinco eta­pas que caracterizam o propósito salvífico de Deus. A primeira é o dom eterno da sua graça, que nos é oferecidoem Cristo. Ase­gunda é o aparecimento histórico de Cristo para destruir a morte através da sua morte e ressurreição. A terceira etapa é o convite pessoal que Deus faz ao pecador, por meio da pregação do evange­lho. A quarta é a santificação moral dos crentes pelo Espírito San­to. E a quinta etapa é a perfeição celestial final, na qual o santo chamamento é consumado.

A extensão do propósito da graça de Deus é realmente sublime, tal como Paulo o delineia, partindo da eternidade passada, passan­do pela sua realização históricaem Jesus Cristo, e culminando no cristão, que tem o seu destino final com Cristo e à semelhança de Cristo, numa futura imortalidade. Não é realmente maravilhoso que, mesmo estando o corpo de Paulo confinado ao espaço apertado de uma cela subterrânea, o seu coração e a sua mente possam elevar-se até a eternidade?

 

 

4. Nossa responsabilidade perante o evangelho divino (vs. 11-18)

 

Para o qual eu fui designado pregador, apóstolo e mestre, 12 e por isso estou sofrendo estas coisas, todavia não me envergonho; por­que sei em quem tenho crido, e estou certo de que ele é podero­so para guardar o meu depósito até aquele dia. 13Mantém o pa­drão das sãs palavras que de mim ouviste com fé e com o amor que está em Cristo Jesus. 14Guarda o bom depósito, mediante o Espirito Santo que habita em nós. 15Estás ciente de que todos os da Ásia me abandonaram; dentre eles cito Figelo e Hermógenes. 16Conceda o Senhor misericórdia à casa de Onesíforo, por­que muitas vezes me deu ânimo e nunca se envergonhou das minhas algemas. 17Antes, tendo ele chegado a Roma, me procurou soli­citamente até me encontrar. 18O Senhor lhe conceda, naquele dia, achar misericórdia da parte do Senhor. E tu sabes, melhor do que eu, quantos serviços me prestou ele em Éfeso.

Se perguntássemos a Paulo qual é a primeira responsabilidade de alguém em relação ao evangelho, ele responderia, sem dúvida, que é receber a boa nova e vivê-la. Mas o seu interesse aqui não se refere à responsabilidade do incrédulo, mas à do cristão perante o evangelho, depois de o ter abraçado. Paulo dá três respostas a esta pergunta:

 

a. Nossa responsabilidade de comunicar o evangelho (v. 11)

Se “a vida e a imortalidade” que Cristo conquistou são trazidas à luz “mediante o evangelho”, então, naturalmente, é imperativo que proclamemos o evangelho. Assim Paulo continua: “para o qual (evangelho) eu fui designado pregador, apóstolo e mestre”. A mesma combinação de palavras ocorre em 1 Timóteo 2: 7, e nas duas passagens Paulo usa o ego enfático, sem dúvida para ex­pressar a sua “sensação de surpresa consigo mesmo”[7] por lhe ter sido conferido tamanho privilégio.

Talvez possamos nos referir às três funções de “apóstolo”, “pre­gador” e “mestre”, dizendo que os apóstolos formularam o evan­gelho, os pregadores o proclamam como arautos, e os mestres são os que instruem de forma sistemática acerca de suas doutrinas e das implicações éticas decorrentes.

Hoje não há mais apóstolos de Cristo. Já vimos anteriormente o quanto é restrito, no Novo Testamento, o uso deste termo. O evangelho foi formulado pelos apóstolos e por eles legado à Igreja. Acha-se em sua forma definitiva registrado no Novo Testamento. Esta fé apostólica neotestamentária é normativa para a Igreja de todos os tempos e lugares. A Igreja está edificada “sobre o funda­mento dos apóstolos e profetas” (Ef 2: 20). Não há outro evange­lho. Não pode haver nenhum outro evangelho.

Embora não haja apóstolos de Cristo em nossos dias, certamen­te há pregadores e mestres, homens e mulheres chamados por Deus para se consagrarem à obra da pregação e do ensino. Notemos que eles são chamados para pregar e para ensinar o evangelho. É muito ao gosto de círculos teológicos fazer uma clara distinção en­tre o kërygma (a pregação) e o didache (o ensino). Ao kerygma corresponde essencialmente a boa nova de Cristo crucificado e ressurreto, com o apelo ao arrependimento e à fé; no didache corres­ponde principalmente a instrução ética aos convertidos. Esta distinção pode ser útil, mas é perigosa. Ela é benéfica somente se nos lembrarmos de que os dois de entrelaçam. Havia muito de didache no kërygma e muito de kerygma no didachê. Além do mais, ambos concernem ao evangelho, sendo que o kèrygma era a proclamação de sua essência, enquanto que o didache incluía as grandes doutrinas que o sustentam, assim como a conduta moral dele decorrente.

A referência a “testemunho”, no versículo 8, que já conside­ramos anteriormente, acrescenta um quarto termo a esta lista. Ele nos lembra que, embora não haja apóstolos hoje, e apesar de so­mente alguns serem chamados ao ministério da pregação e do ensino, cada crente em Cristo deve testemunhar de Jesus Cristo a par­tir de sua experiência pessoal.

 

b. Nossa responsabilidade de sofrer pelo evangelho (v. 12a)

Paulo havia ordenado a Timóteo que não se envergonhasse, mas que assumisse a sua parte de sofrimento pelo evangelho (v.8), tema este a que se dedicou no segundo capítulo desta carta. Mas agora ele enfatiza que não está exigindo de Timóteo algo que ele mesmo, Paulo, não estava preparado para suportar: “. . . por cuja causa padeço. . ., mas não me envergonho…”. Qual a razão para este relacionamento entre o sofrimento é o evangelho? Que há com o evangelho, que os homens odeiam e a ele se opõem, e que por sua causa os que o pregam têm de sofrer?

Dá-se o seguinte: os pecadores suo salvos por Deus em virtude da própria determinação e graça divina, e não em virtude das boas obras deles (v.9). O que ofende as pessoas é a imerecida gratuida­de do evangelho. O homem “natural” ou não regenerado odeia ter de admitir a gravidade do seu pecado e culpa, a necessidade da graça de Deus e a morte expiatória de Cristo para salvá-lo, e conseqüentemente a sua inegável dívida para com a cruz. É isto que Paulo entendeu por “pedra de tropeço da cruz”. Muitos pre­gadores sucumbem à tentação do silêncio com respeito a esse as­pecto. Pregam o mérito dos homens em vez de Cristo e sua cruz, e substituem um pelo outro, “somente para não serem persegui­dos por causa da cruz de Cristo” (Gl 6: 12; cf. 5:11). Ninguém consegue pregar com fidelidade o Cristo crucificado sem sofrer oposição, ou até mesmo perseguição.

 

c. Nossa responsabilidade de zelar pelo evangelho (vs. 12b-18)

Deixando de lado, por enquanto, a segunda parte do versículo 12, chegamos à dupla exortação de Paulo a Timóteo, nos dois versícu­los seguintes: “Mantém o padrão das sãs palavras que de mim ouviste” (v.13); “guarda o bom depósito, mediante o Espírito Santo que habita em nós” (v. 14). Aqui Paulo se refere ao evangelho, à fé apostólica, usando duas expressões. O evangelho é tanto um pa­drão de sãs palavras (v.13), como um depósito precioso (v.14).

“Sãs” palavras são palavras “saudáveis”. A expressão grega é empregada nos evangelhos nos casos de pessoas curadas por Jesus. Anteriormente eram deformes ou doentes; agora estavam bem ou “sãs”. Assim, a fé cristã é a “sã doutrina” (4: 3), que consiste de “palavras sãs”, por não ser mutilada ou enferma, mas “sadia”, ou “completa”. É o que Paulo mencionara, anteriormente, como sendo “todo o desígnio de Deus” (At 20:27).

Além disso, essas “sãs palavras” foram dadas por Paulo a Timó­teo num “padrão”. A palavra grega aqui é hypotyposis. A BLH traduz por “exemplo”. E o Dr. Guthrie diz que ela significa um “esboço rápido, como o faria um arquiteto, antes de lançar no pa­pel os planos detalhados de uma construção.”[8] Neste último ca­no Paulo estaria sugerindo a Timóteo que ampliasse, expusesse e tiplicasse o ensino apostólico. Parece-me que essa interpretação não se harmoniza com o contexto, principalmente num confronto com o versículo seguinte. A única outra ocorrência de hypotyposis no Novo Testamento encontra-se na primeira carta de Paulo a Ti­móteo, onde ele descreve a si mesmo como um objeto da maravi­lhosa misericórdia e da perfeita paciência de Cristo, como um “exemplo dos que haviam de crer nele” (1: 16). Arndt e Gingrich, que optaram por “modelo” ou “exemplo” como sendo a tradução usual, sugerem que essa palavra é empregada mais com o sentido de “protótipo” em 1 Timóteo 1: 16 e com o sentido de “padrão” em 2 Timóteo 1: 13. Neste caso Paulo estaria ordenando a Timó­teo que se conservasse como um padrão de sãs palavras, isto é, “como um modelo de ensino sadio”, aquilo que ouvira do apósto­lo. Isto certamente corresponde ao ensino geral da carta e reflete fielmente a ênfase da sentença na primeira palavra, “modelo” ou “padrão”.

Assim, o ensino de Paulo deve ser uma regra ou diretriz para Timóteo, da qual este não deve se afastar. Pelo contrário, deve obedecer a essa regra, ou melhor, deve apegar-se a ela com firme­za (eche). E assim deve proceder “na fé e no amor que há em Cris­to Jesus”. Isto é, Paulo não está tão preocupado com o que Ti­móteo deve fazer, mas sim com o modo como ele o fará. As con­vicções doutrinárias pessoais de Timóteo e a instrução recebida de outros, assim como as que reteve firmemente dos ensinos de Paulo, devem ser manifestadas com fé e amor. Timóteo deve pro­curar estas qualidades em Cristo: uma crença sincera e um amor pleno.

A fé apostólica não é somente um “padrão de sãs palavras”; é também o “bom depósito” (hë kalë parathtëkë). Ou como ex-pressa a BLH: “as boas coisas que foram entregues a você”.  Sim, o evangelho é um tesouro, depositado em custódia na igreja. Cris­to o confiou a Paulo; e Paulo, por sua vez, o confiou a Timóteo.

Timóteo deveria “guardá-lo”. É precisamente o mesmo apelo que Paulo lançou no final da sua primeira carta (6: 20), com a única diferença de que agora ele o chama de “bom”, literalmente “belo” depósito. O verbo (phylassõj tem o sentido de guardar algo “para que não se perca ou se danifique” (AG). É emprega­do com a idéia de guardar um palácio contra saqueadores, e bens contra ladrões (Lc 11: 21; At 22: 20). Fora há hereges prontos a corromper o evangelho e desta forma roubar da igreja o inesti­mável tesouro que lhe foi confiado. Cabe a Timóteo colocar-se em guarda.

Deveria ele guardar o evangelho com toda a firmeza possível em vista do que acontecera em Éfeso (a capital da província ro­mana da Ásia) e seus arredores, onde Timóteo se encontrava (v.15). O tempo aoristo do verbo “me abandonaram” parece referir-se a um acontecimento especial. É mais provável que tenha sido o momento da segunda detenção de Paulo. As igrejas da Ásia, onde trabalhara por vários anos, tornaram-se muito dependentes dele, e talvez a prisão do apóstolo lhes tenha incutido a idéia de que a fé cristã agora estava perdida. A reação deles talvez tenha sido repudiar Paulo ou recusar-se a reconhecê-lo. De Figelo e Hermógenes nada sabemos de concreto, mas a menção de seus nomes nos indica que possivelmente eles tenham sido os cabeças da opo­sição. De qualquer modo, Paulo via nesse afastamento das igre­jas da Ásia mais do que uma simples deserção pessoal dele; era, sim, uma rejeição à autoridade apostólica. Deve ter-lhe sido algo bastante sério, principalmente porque alguns anos antes, durante a sua permanência em Éfeso por dois anos e meio, Lucas registra que “todos os habitantes da Ásia ouviram a palavra do Senhor, e muitos creram” (At 19: 10). Agora “os que estão na Ásia” ha­viam voltado as costas a Paulo. A um grande despertamento se­guiu-se uma grande deserção. “A todos os olhos, menos aos da fé, deve ter parecido que o evangelho estava às vésperas da extin­ção”.[9]

Uma grande exceção parece ter sido um homem chamado Onesíforo, o qual repetidas vezes acolhera Paulo em sua casa (literal­mente “reanimou-o”, v.16) e que, em Éfeso, prestara-lhe muitos serviços (v.18). Onesíforo permanecera, deste modo, fiel ao signi­ficado do seu nome: “portador de préstimos”. Além disso, não se envorgonhara das algemas de Paulo (v.16), o que dá a entender que não repudiou a Paulo quando preso, e que o seguiu, e mesmo o acompanhou a Roma, procurando-o até encontrá-lo no calabouço. Paulo tinha boas razões para ser grato por este amigo fiel e co­rajoso. Não é surpreendente, pois, que se expresse por duas vezes em oração (vs. 16, 18), primeiro por sua casa (“conceda o Senhor misericórdia à casa de Onesíforo”) e depois, especificamente, por Onesíforo (“O Senhor lhe conceda, naquele dia, achar misericórdia da parte do Senhor”).

Vários comentaristas, notadamente católicos romanos, partin­do das referências à casa de Onesíforo (mencionada novamente em 4: 19) e à expressão “naquele dia”, têm argumentado que One­síforo àquela altura estava morto e que, por conseguinte, no versí­culo 18 temos uma oração em favor de um falecido. Isto, na verda­de, não passa de uma simples e gratuita conjectura. O fato de Paulo mencionar primeiro Onesíforo e depois sua casa não dá a entender necessariamente que estejam eles separados em virtude de sua morte; é mais viável crer que fosse devido à distância: Onesíforo estava ainda em Roma, enquanto que sua família perma­necia em casa, em Éfeso. “Considero que é uma oração em sepa­rado pelo homem e por sua família”, escreve o Rev. Moule, “por estarem então separados um do outro, por terras e mares . . . Não há necessidade alguma de interpretar que Onesíforo tivesse morri­do. A separação de sua família, por uma viagem, isso é o que se de­preende da passagem”. [10]

Em todo o caso, todos na Ásia, como Timóteo estava bem ciente, voltaram as costas ao apóstolo, com exceção do leal Onesíforo e de sua família. Era em tal situação de apostasia quase universal que Timóteo deveria “guardar o bom depósito” e “manter o padrão das sãs palavras”, ou seja, deveria preservar o evangelho ima­culado e genuíno. Já seria uma grande responsabilidade para qual­quer um, quanto mais para alguém com o temperamento de Timóteo. Como poderia então permanecer firme?

O apóstolo dá a Timóteo a base segura de que ele necessita. Ti­móteo não pode pensar em guardar o tesouro do evangelho com força própria; somente poderá fazê-lo “mediante o Espírito San­to que habita em nós (v.14). A mesma verdade é ensinada na se­gunda parte do versículo 12, que até aqui ainda não consideramos. A maior parte dos cristãos está familiarizada com a tradução “por­que sei em quem tenho crido, e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele dia”. Estas palavras são verdadeiras e muitas outras passagens bíblicas as confirmam; quan­to à estrutura lingüística, foram traduzidas acuradamente. De fato, tanto o verbo “guardar” como o substantivo “depósito” são preci­samente as mesmas palavras no versículo 12 e no versículo 14 e ainda em 1 Timóteo 6: 20. Presume-se, então, que “o meu depó­sito” não é o que eu lhe confiei (minha alma ou eu mesmo, como em 1 Pedro 4: 19), mas aquilo que ele confiou a mim (o evange­lho).

O sentido, pois, é este:Paulo podia dizer que o depósito é “meu”, porque Cristo lho confiou. Contudo, Paulo estava persuadido de que era Cristo que iria conservá-lo seguro “até aquele dia”, quando ele teria de prestar contas da sua mordomia. Em que se baseava a sua confiança? Somente numa coisa: “eu o conheço”. Paulo conhecia a Cristo, em quem confiava, e estava convencido da ca­pacidade dele para manter o depósito em segurança: “porque sei em quem tenho crido, e estou bem certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele dia” (v.12). Cristo o confiou a Paulo, é verdade, mas o próprio Cristo cuidará do depósito. E ago­ra Paulo o está confiando a Timóteo. E Timóteo pode ter esta mes­ma segurança.

Aqui há um estímulo muito grande. Em última análise, é Deus mesmo quem preserva o evangelho. Ele se responsabiliza por sua conservação. “Sobre qualquer outro fundamento a obra da prega­ção não se sustentaria nem por um momento”.[11] Podemos ver a fé evangélica encontrando oposição em toda parte, e a mensagem apostólica sendo ridicularizada. Talvez vejamos uma crescente apostasia crescer na igreja, muitos de nossa geração abandonando a fé de seus pais. Mas não temos nada a temer! Deus nunca permi­tirá que a luz do evangelho se apague. É verdade que ele o confiou a nós, frágeis e falíveis criaturas. Ele colocou o seu tesouro em frá­geis vasos de barro, e nós devemos assumir a nossa parte na guarda e na defesa da verdade. Contudo, mesmo tendo entregue o depósi­to aos cuidados de nossas mãos, Deus não retirou as suas mãos desse depósito. Ele mesmo é, afinal, o seu melhor vigia; ele saberá preservar a verdade que confiou à Igreja. Isto nós sabemos, porque sabemos em quem depositamos a nossa confiança, e em quem con­tinuamos a confiar.


[1] pro chronön aiöniön, A mesma expressão ocorre em Tt 1: 2, com refe­rência à promessa de vida feita por Deus, cf. Rm 16:25.

[2] Veja Rm 8:28;9:11 e Ef 1:11 para outros exemplos da predestinação divina, “determinação” (prothesis) de salvação.

[3] Ellicott, p. 115; eudokia significa “grande prazer”

[4] Simpson,p. 125.

[5] Barrett, p. 95

[6] Moule, p. 50

[7] Guthrie, p. 73

[8] Guthrie, p. 132

[9] Moule, p. 16

[10] Moule, pp. 67, 68.

[11] Barrett, p. 97

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