SÉRIE “ANTES DE TUDO PREGA O EVANGELHO” 2


SÉRIE  “ANTES DE TUDO PREGA O EVANGELHO” 2

2. Timóteo, o filho amado de Paulo (vs. 2-8)

 

Ao amado filho Timóteo: Graça, misericórdia e paz da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus nosso Senhor. 3Dou graças a Deus, a quem, desde os meus antepassados, sirvo com consciência pura, porque sem cessar me lembro de ti nas minhas orações, noite e dia. 4Lembrado das tuas lagrimas, estou ansioso por ver-te, para que eu transborde de alegria,  5pela recordação que guardo de tua fé sem fingimento, a mesma que primeiramente habitou em tua avó Lóide, e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também em ti. 6Por esta razão, pois, te admoesto que reavives o dom de Deus, que há em ti pela imposição de minhas mãos. 7Porque Deus não nos tem dado espirito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação. 8Não te envergonhes, portanto, do teste­munho de nosso Senhor, nem do seu encarcerado que sou eu; pelo contrário, participa comigo dos sofrimentos, a favor do evan­gelho, segundo o poder de Deus.

Aqui Paulo chama Timóteo de “amado filho”, e em outra parte “filho amado e fiel no Senhor” (1 Co 4: 17), presumivelmente porque foi o instrumento humano usado para a conversão de Ti­móteo. Certamente a razão por que podia referir-se aos coríntios como “filhos meus amados”, era que “eu pelo evangelho vos ge­reiem Cristo Jesus” (1 Co 4: 14, 15). Presumimos, pois, que quan­do Paulo e seu companheiro visitaram Listra, em sua primeira viagem missionária, “onde anunciavam o evangelho” (Atos 14: 6-7), Timóteo ouviu e aceitou as boas novas, de forma que, quan­do Paulo tornou a visitar Listra, alguns anos mais tarde em sua segunda viagem missionária, “havia ali um discípulo chamado Timó­teo”, o qual já fizera tal progresso na vida cristã que “dele davam bom testemunho os irmãos em Listra e Icônio” (At 16:1-2).

A seu “amado filho” Paulo envia agora a costumeira saudação de “graça e paz”, acrescentando, nas duas cartas a Timóteo, “mi­sericórdia”. Podemos estar certos de que esta saudação em três palavras não é mera convenção epistolar, pois estas são palavras de profunda importância teológica. Elas nos comunicam muito acerca da triste condição do homem em pecado e, apesar disso, do imutável amor de Deus pelo pecador. Porque assim como a graça é a bondade de Deus para com os indignos, a misericórdia é mostrada aos fracos e desamparados, incapazes de ajudarem-se a si mesmos. Nas parábolas de Jesus, foi misericórdia que o bom samaritano demonstrou à vítima dos assaltantes; foi misericórdia que o rei conferiu a seu servo que estava tão endividado a ponto de não poder pagar a sua dívida (Lc 10: 37; Mt 18: 33). Foi tam­bém misericórdia que converteu Saulo de Tarso, ferrenho blasfemador e perseguidor. “Mas obtive misericórdia”, escrevera Paulo em sua primeira carta a Timóteo (1 Tm 1: 13; 16).   “Paz”, por outro lado, é reconciliação, restauração da harmonia em vidas ar­ruinadas pela discórdia. Podemos talvez sintetizar estas três bên­çãos do amor de Deus como sendo graça ao indigno, misericór­dia ao desamparado e paz ao aflito, permanecendo Deus Pai e Cristo Jesus, nosso Senhor, a fonte única de onde flui essa tripla torrente.

Segue então um parágrafo de cunho bem pessoal, no qual o apóstolo afirma não ter se esquecido de Timóteo. “Sem cessar me lembro de ti em minhas orações, noite e dia” (v.3), “lembrado das tuas lágrimas” (v.4) e “pela recordação que guardo de tua fé sem fingimento” (v.5). E sempre que me lembro de ti, Timóteo, “dou graças a Deus” (v.3).

Este último ponto é significativo. Mostra que Paulo reconhecia ter sido Deus quem fizera de Timóteo o que ele de fato era. Timó­teo não era um apóstolo como Paulo. Isso eles deixaram bem cla­ro, ao escreverem em conjunto cartas às igrejas, como por exem­plo na carta aos Colossenses: “Paulo, apóstolo de Cristo Jesus, por vontade de Deus e ó irmão Timóteo. . .”. Timóteo era um ir­mãoem Cristo. Eratambém um ministro cristão, um missionário e representante do apóstolo. E Deus vinha operando na vida de Timóteo para fazer dele uma pessoa com tais atributos. Direta ou indiretamente, Paulo menciona, neste parágrafo, as quatro maiores influências que teriam contribuído para a formação de Timóteo.

 

a. A formação familiar

Paulo refere-se, neste parágrafo, a seus antepassados (v.3), dele e de Timóteo, e também à mãe e à avó de Timóteo (v.5). E isto faz sentido porque toda pessoa é, em alto grau, afetada por razões de ordem genética. A maior influência na formação de cada um de nós deve-se ou à ascendência ou ao lar. Por esta mesma razão, boas biografias nunca começam abordando as pessoas de que tra­tam, mas os seus pais e possivelmente também os seus avós. É bem verdade que ninguém pode herdar a fé de seus pais, do mesmo modo como herda traços de personalidade, mas uma criança pode ser conduzida à fé pelo ensino, pelo exemplo e pelas orações de seus pais.

Timóteo provinha de um lar temente a Deus. Lucas nos con­ta que ele era filho de um casamento misto, em que o pai era grego e a mãe judia (Atos 16: 1). Pode-se presumir que o seu pai fosse descrente, mas a mãe Eunice era uma judia crente, que se tornou cristã. E, antes da mãe, sua avó Lóide era também con­vertida, visto que Paulo escreve sobre a “fé sem fingimento” das três gerações (v.5). Talvez os três, avó, mãe e filho, devessem sua conversão a Paulo, quando levou o evangelho a Listra. Mesmo antes da conversão a Cristo, essas mulheres tementes a Deus ha­viam instruído Timóteo no Antigo Testamento, assim que, “des­de a meninice” fora inteirado das “sagradas letras” (3: 15). Calvino comenta, com muita propriedade, que Timóteo “foi criado de tal modo que pôde sugar a piedade junto com o leite materno”. [1]

Paulo poderia dizer praticamente o mesmo de si próprio. Estivera servindo a Deus “com uma consciência pura”, assim como os seus antepassados o fizeram antes dele. É claro que a sua fé se enriqueceu, tornou-se mais completa e mais profunda quan­do Deus lhe revelou Cristo. Contudo, ainda era substancialmente a mesma fé dos crentes do Antigo Testamento, como Abraão e Davi, pois era o mesmo Deus no qual todos eles sempre creram. É como se lê em Romanos 4. Não é de se estranhar, então, que Paulo tenha afirmado ao procurador Félix: “Sirvo ao Deus de nossos pais” (Atos 24: 14; cf. 26: 6). Devemos sempre lembrar disso ao testemunharmos aos judeus contemporâneos. A conver­são de um judeu a Cristo não é de forma alguma um ato de infidelidade a seus antepassados; é, isto sim, o cumprimento da fé e da esperança de seus antepassados.

Voltando a Timóteo, a primeira influência em sua vida foi a sua educação no lar e, em particular, a sua mãe e a sua avó, cren­tes sinceras, que lhe falaram das Escrituras desde a infância. De igual forma, é uma bênção de valor incalculável, da parte de Deus, hoje nascer e ser criado num lar cristão.

 

b. A amizade espiritual

Depois de nossos pais, os nossos amigos são os que mais nos influ­enciam, especialmente se são, de algum modo, nossos professores. E Paulo era para Timóteo um mestre e amigo excepcional. Já vi­mos que Paulo era o “pai espiritual” de Timóteo. Paulo o conduzira a Cristo, por isso não se esqueceu dele, nem o abandonou. Paulo lembrava-se constantemente dele, como diz repetidamen­te nesta passagem. Também o tomara consigo em suas viagens e o treinara como um aprendiz. Na última vez em que se separaram, Timóteo foi incapaz de conter as lágrimas. E agora, recordando-se daquelas lágrimas, Paulo almejava “noite e dia” tornar a vê-lo, “para que eu transborde de alegria” (v.4). O Rev. Handley Moule interpreta apipothön como “ardente saudade”.[2] Entrementes, Paulo orava sem cessar por Timóteo (v.3) e, de tempos em tempos, escrevia-lhe cartas de aconselhamento e encorajamento, tais como esta.

Tal amizade crista, incluindo o companheirismo, as cartas e as orações que a expressavam, certamente teve um poderoso efeito na formação do jovem Timóteo, fortalecendo-o e sustentando-o em sua vida e no serviço cristãos.

Eu agradeço a Deus pelo homem que me levou a Cristo e pela extraordinária devoção com que me acompanhou nos primeiros anos da minha vida cristã. Ele me escrevia semanalmente, creio que por sete anos. Também orava por mim todos os dias e creio que ainda o faça. Nem posso avaliar o quanto sou devedor a Deus por esse fiel amigo e pastor.

 

c. O dom espiritual

Paulo deixa agora os meios indiretos usados por Deus para moldar o caráter cristão de Timóteo (seus pais e amigos) para enfocar um dom diretamente dado por Deus a ele. “Por esta razão, pois, te admoesto que reavives o dom de Deus, que há em ti pela imposição das minhas mãos” (v.6). Que dom (carisma) da graça de Deus foi este, não sabemos nem de leve, pelo simples fato de não nos ter sido revelado. Não temos a liberdade de ir além da Escritura. Contudo, podemos arriscar uma conjectura, desde que ressalvemos que se trata de apenas uma suposição. O que está claro, tanto neste ver­sículo como numa referência similar em 1 Timóteo 4: 14, é que o dom lhe fora conferido quando Paulo e certos “anciãos” (provavel­mente da igreja em Listra) lhe impuseram as mãos. Os dois versí­culos mencionam a imposição de mãos e parecem referir-se ao que podemos chamar de sua “ordenação” ou “comissionamento”. Sen­do assim, então o dom em questão seria um dom que Deus lhe dera relacionado com o seu ministério. É possível também que Paulo esteja se referindo ao ministério em si, para o qual Timóteo fora separado, pela imposição de mãos. De fato, as funções de pastor e de mestre, tal como as de apóstolo e de profeta, são apontadas como dons da graça de Deus (Ef 4: 7-11). Desse modo, talvez Dean Alford tenha razão, ao dizer que “o dom espiritual é o de ensinar e o de presidir a igreja”.[3] Ou então a referência pode ter sido ao dom de evangelização. Logo adiante Paulo insiste com Timóteo para que este faça o trabalho de evangelista, cumprindo assim o seu ministério (4: 5). Ou ainda, uma vez que o apóstolo prossegue imediatamente referindo-se à espécie de espírito que Deus nos deu (v.7), é possível que ele estivesse se referindo a uma dádiva ou unção especial do Espírito, que Timóteo recebera por ocasião de sua ordenação, e que o capacitaria à obra para a qual fora chamado. Minha opinião pessoal é que é mais seguro descre­ver o carisma de Timóteo com as palavras de Alfred Plummer: “a autoridade e o poder para ser um ministro de Cristo”.[4] Isto inclui tanto a função como o equipamento espiritual necessário para desempenhá-la.

Aprendemos, pois, que o homem não é somente o que ele rece­be de seus pais, amigos e mestres, mas também o que Deus mesmo faz dele, quando o chama para um ministério especial, dotando-o com recursos espirituais apropriados.

 

d. A disciplina pessoal

De fato, os dons de Deus, tanto os naturais como os espirituais, precisam ser desenvolvidos e usados. As parábolas dos talentos e das minas, que nosso Senhor ensinou, ilustram claramente a res­ponsabilidade pelo serviço, a recompensa pela fidelidade e o peri­go da preguiça. Assim, na sua primeira carta, Paulo pede que Timó­teo não se faça negligente com o seu dom (4: 14) e na segunda car­ta o admoesta a reavivá-lo (v.6), ou reacendê-lo. O dom é compa­rado ao fogo.  Do verbo grego anazöpureö, que não aparece em nenhuma outra passagem do Novo Testamento, não se pode deduzir que Timóteo tenha deixado o fogo extinguir-se e que tenha agora de soprar as brasas quase apagadas, até que o fogo ressurja. O pre­fixo ana pode indicar tanto aumentar o fogo como tornar a acen­dê-lo. Parece, pois, que a exortação de Paulo é para continuar so­prando, para “atiçar aquele fogo interior”, para conservá-lo vivo, até inflamar-se, e isso presumivelmente pelo exercício fiel do seu dom e pela súplica a Deus por constante renovação desse dom.

Lançando este apelo, Paulo imediatamente justifica: “porque Deus não nos tem dado espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação” (v.7). Já consideramos anteriormente os problemas da mocidade, da saúde debilitada e do temperamento tímido contra os quais Timóteo teria que lutar. Ele parece ter sido uma criatura muito arredia e sensível, a quem a responsabili­dade se configurava como uma carga pesada. Talvez temesse ex­cessos e extravagâncias espirituais. Assim, Paulo é compelido a não somente insistir com ele para conservar ativo o seu dom, mas também a certificá-lo de que ele não devia ser acanhado no exer­cício do mesmo.

Por que não? Bem, porque “covardia não tem nada a ver com o Cristianismo”,[5] ou, como Paulo o diz, por causa do Espírito que Deus nos deu. Note-se que, ainda que um certo dom espiritual específico tenha sido dado a Timóteo (“que há em ti”), o dom do Espírito em si foi dado a todos nós (“Deus… nos tem dado”) a to­dos os que estamosem Cristo. E este Espírito, que Deus deu a todos nós, não é um Espírito de “covardia”, mas de “poder, de amor e de moderação”. Sendo ele o Espírito de poder, podemos estar confiantes de que ele nos capacita no exercício do nosso ministério. Sendo ele o Espírito de amor, devemos usar a autori­dade e o poder de Deus a serviço do próximo, não em auto-afir­mação ou vanglória. E sendo ele o Espírito de domínio próprio, este uso deve ser com visível reverência e reserva.

Até aqui estudamos o que os primeiros sete versículos da carta nos transmitem a respeito desses dois homens, Paulo e Timóteo, e de suas qualidades essenciais. Paulo sustenta ser apóstolo de Jesus Cristo “pela vontade de Deus”, como dissera antes ser o que ele era “pela graça de Deus” (1 Co 15: 10). E uma série de fato­res levou Timóteo a ser o que era: foi criado no temor de Deus, a amizade e o treinamento de Paulo, o dom de Deus, e a sua autodisciplina em desenvolvê-lo.

Em princípio, acontece o mesmo com todo o povo de Deus. Talvez a coisa mais impressionante seja a combinação, tanto em Paulo como em Timóteo, da soberania divina com a responsabili­dade humana. São duas realidades, de revelação e de experiência, que consideramos difícil subsistirem ao mesmo tempo, e impos­sível serem sistematizadas numa acurada doutrina.

Paulo podia escrever sobre a vontade de Deus e assegurar que a graça divina fizera dele o que ele era. Mas Paulo imediatamente acrescentou: “e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã, antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus comigo” (1 Co 15: 10). Ou seja, ele acres­centou o seu esforço à graça de Deus; contudo, na verdade, foi a graça de Deus que inspirou o seu esforço.

Com Timóteo acontecia o mesmo. Sua mãe e sua avó puderam ensinar-lhe as Escrituras e levá-lo à conversão. Foi Paulo que o le­vou a Cristo, tornou-se seu amigo, orou por ele, escreveu-lhe, trei­nou-o e exortou-o. Timóteo recebeu de Deus um dom especial, em sua ordenação.

Mas o próprio Timóteo teve que desenvolver sozinho o dom divino, sem Paulo. Ele teve de acrescentar a sua própria autodisciplina aos dons de Deus.

Conosco não se dá de forma diferente. O muito ou o pouco que tenhamos recebido de Deus, seja diretamente numa doação natural e espiritual, seja indiretamente através de pais, amigos ou professores, de qualquer modo devemos aplicar-nos numa ativa autodisciplina para cooperar com a graça de Deus e para conservar bem aceso o fogo interior. De outra forma, jamais seremos os homens e as mulheres que Deus quer que sejamos; jamais cumpri­remos o ministério que ele nos deu para exercermos.

Paulo deixa, agora, os vários fatores que contribuíram para a formação de Timóteo e volta-se para a autenticidade do evange­lho e para a responsabilidade de Timóteo em relação ao mesmo. Antes de definir o evangelho, ele roga o Timóteo que não se en­vergonhe do mesmo (v.8). O ministério de Timóteo deveria ser caracterizado pelo sofrimento e não pela vergonha. Ele poderia ser jovem, débil, tímido e fraco;   também poderia recuar diante das tarefas para as quais estava sendo chamado. Mas Deus o mol­dou e o dotou para seu ministério, de modo que Timóteo não deveria envergonhar-se desse ministério, nem temer exercê-lo.

Isto significa, antes de tudo, que Timóteo não deveria enver­gonhar-se de Cristo, “do testemunho de nosso Senhor”. Cada cristão é uma testemunha de Cristo, e o testemunho cristão é es­sencialmente um testemunho tanto para Cristo, como de Cristo (cf. Jo 15: 26-27; At 1: 8). Assim, cada cristão deve estar pron­to e desejoso, se necessário, a fazer-se “um louco, por causa de Cristo” (1 Co 4: 10); por ninguém mais se diz que alguém deva se dispor a passar por um louco!

Não tendo Timóteo que se envergonhar do Senhor, também não tinha que se envergonhar de Paulo. Porque é possível orgu­lhar-se de Cristo, mas envergonhar-se do seu povo e sentir-se per­turbado por se associar a ele. Parece que quando Paulo foi pre­so novamente e posto em cadeias, quase: todos os seus antigos auxiliares o abandonaram (v.15). Agora ele implora a Timóteo não lhes seguir o exemplo. Aos olhos dos homens, ele talvez seja prisioneiro do imperador; na realidade, porém, é prisioneiro do Senhor, um prisioneiro voluntário, mantido pelos homens em prisão somente com a permissão de Cristo e pela causa de Cris­to.[1]

Timóteo não deve, portanto, envergonhar-se do evangelho, mas tomar parte no sofrimento por ele. Sendo fraco em si mesmo, poderia ser fortalecido pelo poder de Deus, para assim suportar os sofrimentos. E isso era necessário, pois o evangelho de Cristo crucificado, loucura para alguns e pedra de tropeço para outros (1 Co 1: 23), sempre despertou oposição. E opondo-se à mensa­gem, as pessoas se colocam obviamente contra os mensageiros que, deste modo, “sofrem com o evangelho do sofrimento”.[2]

Estes continuam ainda sendo os três modos mais importantes pelos quais os cristãos, como Timóteo, são tentados a envergonhar-se: ora do nome de Cristo, do qual somos chamados a dar testemunho; ora do povo de Cristo, ao qual também pertence­mos, se é que pertencemos a Ele; ora do evangelho de Cristo, cuja propagação nos foi confiada.

A tentação é forte e insidiosa. Se Timóteo não a sentisse, Paulo não o exortaria nestes termos. Se o próprio Paulo nunca tivesse se sentido exposto a ela, não teria tido que se expressar, alguns anos antes, com tanta veemência: “Não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1: 16). Com efeito, se esta não fosse uma tentação corriqueira, o Senhor Jesus não teria necessidade de advertir sole­nemente: “Porque qualquer que, nesta geração adúltera e pecadora, se envergonhar de mim. e das minhas palavras, também o Fi­lho do homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos” (Mc 8: 38). Todos nós somos muito mais sensíveis à opinião pública do que pensamos, e tendemos a dobrar-nos facilmente às pressões dela, tal como palmeiras agita­das pelo vento.

Paulo agora fala mais detalhadamente sobre o evangelho do qual Timóteo não deve se envergonhar, e pelo qual deve se dis­por também a sofrer. Ele começa citando as características mais importantes (vs. 9, 10) e depois resume a nossa responsabilidade em relação ao evangelho (vs. 11, 18). Este é então o duplo tema do restante do capítulo: o evangelho de Deus e o nosso dever para com ele.


[1] Na sua prisão domiciliar anterior, em Roma, Paulo cognominara-se um (ou o) prisioneiro de Cristo Jesus em Ef 3: 1 e Fm 1: 9. Aqui ele é “o seu encarcerado,” enquanto que em Ef 4: 1 a expressão usada foi “o prisioneiro no Senhor” (en kuriö), dando a entender, talvez, que fora preso por causa de sua união com Cristo.

[2] Moule,pp. 45, 72.


[1] Calvino, p. 292. Cf. p. 242 de um comentário similar sobre 1 Tm 4: 6.

[2] Moule, pp. 40 e 45.

[3] Alford, p. 342, um comentário sobre 1 Tm 4:14.

[4] Plummer, p. 314.

[5] Bairett, p. 94

 

segue no próximo

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